sábado, 5 de abril de 2025

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

 


Você sabia que no coração do Recife uma mansão imponente desafia
o tempo e a especulação imobiliária?


Olá você que acompanha a coluna #SendoProsperidade aqui pelo blog da Taís Paranhos, tudo bem? Hoje vamos unir história e memória do Recife. Será que quem mora, ou já passou, pela Zona Norte já viu ou ouviu falar da Mansão Henry Gibson, Palácio da Ponte D’Uchôa ou Palacete Baptista da Silva, na avenida Rui Barbosa, no bairro das Graças? Erguida em 1847, às margens do Rio Capibaribe, esta construção carrega lendas, tragédias e um passado grandioso. Ao longo dos anos, ela se tornou um símbolo do poder, da elite e dos mistérios que rondam o Recife do século XIX. Mas quem foi Henry Gibson e quais segredos essa mansão guarda até hoje?

Em 1832 um comerciante inglês desembarcou no Recife. A cidade era quente, política e economicamente estável. Isso o atraiu. Mas o idioma era uma barreira. Logo, Gibson não era um homem comum. Dono de uma mente estratégica e de uma ambição sem limites, ele construiu um império baseado na exportação de algodão e couro. Seu nome passou a ser sinônimo de riqueza e de influência. No Recife, conheceu Alexandrina Rosa. Em 1842, casaram-se na igreja anglicana da cidade: um dos templos mais tradicionais da comunidade britânica, à época. No entanto, Henry Gibson almejava mais, ele queria muito mais, ansiava por um símbolo do seu sucesso e foi assim que, em 1847, decidiu construir uma das casas mais emblemáticas da história de Pernambuco.

A casa foi projetada por ele próprio e inspirada no estilo arquitetônico neomanuelino - uma corrente revivalista que se desenvolveu dentro da arquitetura e das artes decorativas portuguesas entre meados do século XIX e o início do século XX - uma vertente do estilo gótico inglês, mas com um toque do manuelino português, criando uma estética única e sofisticada, mas nem todos viram sua construção com bons olhos. Em 1855, jornais locais criticaram a casa: “construção de mau gosto”. Hoje, no entanto, ela é um dos últimos exemplares do neomanuelino no Brasil e o único, de grande porte, construído por um particular. O que muitos não sabem, hoje em dia, é que a entrada principal da mansão nunca foi a que conhecemos hoje, pelo lado da avenida. No século XIX, o Rio Capibaribe era uma das principais vias de transporte. As elites pernambucanas navegavam por suas águas para chegar às residências mais sofisticadas da cidade. A grande fachada que hoje vemos como fundos da casa, na verdade, já foi sua entrada principal, mas as águas do Capibaribe, não foram as únicas a testemunhar o tempo passar.

Se você já ouviu falar do livro Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, talvez conheça essa história: “disse que no jardim da mansão um marinheiro fantasma surgia no topo do mastro de um navio”. Ora, e porque havia um topo de um mastro de um navio no jardim? A resposta está no próprio Henry Gibson. Ele manteve esse mastro ali depois de uma visão que teve, após um sonho vívido: para ele, aquele objeto significava sua vitória nas rotas comerciais marítimas. Décadas depois, o objeto foi transferido para o British Country Club e, simplesmente, desapareceu. Sem deixar rastros. Coincidência ou mais um mistério da mansão Henry um Gibson?

Além da imponência da casa, Henry Gibson fez questão de criar um dos primeiros jardins paisagísticos do Recife. De acordo com o saudoso arquiteto pernambucano José Luiz da Mota Menezes, “o jardim refletia o gosto refinado da elite da época”. Ainda de acordo com Menezes, “foi a primeira casa da região projetada com jardim. As grades da mansão, que ainda cercam a propriedade, foram forjadas pela Fundição C. Starr & Cia, que funcionou na Rua da Aurora.

Nem tudo foi alegria dentro dessa casa. Henry Gibson não escapou dos infortúnios do destino. Durante uma poda de árvore no jardim, sofreu um grave acidente, resultando na amputação de um dos seus dedos. Mas um episódio, ainda mais misterioso, marcou a história da mansão: a queda de Alexandrina Rosa. Grávida de sua filha Alice, Alexandrina caiu da escadaria da casa. O que teria acontecido? Os registros históricos não esclarecem os detalhes, deixando, assim, espaços para diversas interpretações . O que se sabe é que esse foi um dos momentos mais marcantes da vida de Henry Gibson. E sua casa nunca mais foi a mesma. Após a saída da família Gibson, a casa foi ocupada pelo internato pernambucano: um colégio voltado para a elite do Recife.

No final do século XIX, a propriedade foi adquirida pela família Baptista da Silva, uma das famílias mais influentes da época, ligada à indústria e ao setor bancário. Mesmo após uma grande reforma, a família respeitou a estrutura original da casa, garantindo que sua história permanecesse intacta. Mas o futuro da mansão quase tomou um rumo inesperado: nos anos 1970, surgiu um projeto para transformá-la na residência oficial do governador de Pernambuco. A ideia era desapropriar a casa e adaptá-la para ser um dos mais importantes endereços do Estado. Mas o plano nunca deu saiu do papel e, assim, a Mansão continuou pertencendo à iniciativa privada e ao imaginário popular.

Hoje, a mansão Henry Gibson continua imponente , misteriosa e cheia de histórias. Embora sua fachada pareça isolada no tempo, sua conexão com o rio Capibaribe e sua arquitetura única garantem que o seu nome jamais seja esquecido, mas a pergunta que fica é: será que já descobriu-se tudo sobre está casa, ou existem segredos escondidos dentro desses muros? A resposta talvez, só o tempo nos diga.

Mariângela Borba é professora, jornalista profissional, revisora credenciada, social media, Produtora Cultural, especialista em Cultura Pernambucana pela Fafire e membro da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP) que teve como um dos fundadores, seu bisavô, jornalista Edmundo Celso.