Ainda Resta uma Esperança
Enquanto Ainda Há Tempo
Por Mariângela Borba
Ontem (13/06/2026), durante uma aula, soube por um amigo que o Brasil se
despedia do Vovô Anésio.
Achei curioso porque fui, justamente, eu quem “apresentei” o Vovô Anésio a
esse amigo alguns meses atrás. E talvez por isso a notícia tenha nos
atravessado de um jeito diferente.
Por muito tempo, o Vovô do Brasil me lembrou pessoas que amo. Em alguns
momentos, lembrava minha mãe. Em outros, meu pai. Talvez por isso eu sorrisse
tantas vezes ao assistir seus vídeos.
O luto é assim. Não é linear. Não tem ponto final. Há sempre algo que nos
faz lembrar de quem partiu: um cheiro, uma música, uma frase ou até uma
conquista que desperta aquela vontade de contar para alguém que já não está
fisicamente aqui. Então nos damos conta de que a saudade continua existindo,
mas também entendemos que o amor permanece. De alguma forma, quem amamos segue
vivo em nós.
Acredito que muita gente tenha sentido algo parecido com o que senti. A
prova disso é que não soube da notícia pelas redes sociais, mas por alguém que
fez questão de compartilhar comigo.
E a razão talvez seja simples.
O Vovô Anésio não era apenas um influenciador. Ele era aquele idoso das
coisas simples, das conversas sem pressa – assim como o meu pai –, da sabedoria
popular, da família, da cervejinha "proibida", do café coado com
bastante açúcar, do quintal de casa e da risada sincera. Era uma presença.
Daquelas que já não precisam provar nada para ninguém.
Talvez poucos se lembrem, mas sua história nas redes não começou pela fama.
Depois de uma sequência de infartos, seu neto, Caio, resolveu pegar o celular
para registrar momentos com o avô. Não para viralizar, nem para conquistar
seguidores. Apenas para eternizar lembranças.
O que era para permanecer dentro de casa acabou alcançando o Brasil inteiro.
Milhões de pessoas se apaixonaram por um senhor que simplesmente era ele
mesmo. Não interpretava personagens, não seguia fórmulas e não parecia
preocupado em agradar algoritmos.
Paradoxal, não?
Em um tempo em que tanta gente performa, talvez ele tenha conquistado tantas
pessoas justamente por sua autenticidade.
Outra coisa que sempre me chamou atenção foi a reconciliação entre ele e a
Vovó Elza. Uma história que nos lembrou que nunca é tarde para recomeçar.
Depois de um período de distanciamento, voltaram a caminhar juntos, a
compartilhar gestos de carinho e a redescobrir a companhia um do outro.
E isso me fez pensar em tantos casais de outra geração. Homens e mulheres
que passaram a vida inteira juntos, construindo famílias, enfrentando
dificuldades, dividindo alegrias e preocupações, mas que nem sempre aprenderam
a verbalizar seus sentimentos. Talvez o amor deles estivesse mais nos gestos do
que nas palavras. Um jeito diferente de amar, difícil de compreender com os
olhos de hoje, mas nem por isso menos verdadeiro.
Mas existe outra reflexão que a história do Vovô Anésio desperta.
Há um trecho bíblico que diz: "Levanta-te diante das cãs e honra a face
do idoso" (Lv 19,32).
E é exatamente aí que muitas vezes temos falhado.
Falhamos quando ignoramos nossos pais, nossos avós ou aquele senhor
desconhecido que cruza nosso caminho. Falhamos quando criamos tecnologias que
excluem quem mais precisa de acolhimento. Falhamos quando a correria ocupa o
espaço que antes era reservado para a convivência.
Já sentei ao lado de idosos que ninguém visita. Já visitei abrigos, cantei
para eles e com eles; vi seus olhos brilharem. E aprendi algo que nunca
esqueci: a solidão nem sempre é falta de amor. Muitas vezes é falta de um tempo
que a gente decidiu não ter.
Talvez seja por isso que a partida do Vovô Anésio tenha tocado tanta gente.
Porque, no fundo, ela nos lembra que o tempo não para e que as presenças que
hoje parecem garantidas um dia serão apenas lembranças.
E talvez este texto seja quase uma carta aos vivos. Aos que ainda podem
telefonar, visitar, sentar para um café, ouvir uma história repetida pela
décima vez e, mesmo assim, agradecer por ela existir. Aos que ainda podem
abraçar, agradecer, pedir perdão ou simplesmente fazer companhia.
Porque é exatamente aí que muitos têm falhado.
Não é julgamento. É constatação.
Muitos se emocionaram com o Vovô do Brasil, mas não encontram alguns minutos
para conversar com o vovô ou a vovó de suas próprias casas.
Que tal deixar o celular de lado e escolher uma prosa no sofá?
Com a partida do Vovô Anésio, não vai embora apenas uma pessoa. Vão
histórias que ninguém mais poderá contar do mesmo jeito. Vai um pedaço de uma
geração. Vai um pedaço da nossa própria origem.
Foi assim quando perdi minha avó. Foi assim quando perdi minha mãe.
Tantas histórias que não podemos mais ouvir.
E justamente por isso, preciso escutar com mais atenção aquelas que ainda me
estão sendo contadas.
Sorte a minha que ainda tenho meu pai ao meu lado. Até quando, eu não sei.
Mas enquanto Deus permitir, seguiremos compartilhando nossas missões,
fortalecendo um ao outro e construindo novas memórias.
Gostaria que fosse diferente? Claro.
Gostaria que o tempo não passasse e que as despedidas não existissem.
Mas os planos de Deus não são os nossos, e o nosso tempo jamais será o tempo
Dele. Estamos vivendo apenas uma etapa da caminhada; o restante pertence ao
mistério e à fé.
Talvez essa tenha sido a maior lição deixada pelo Vovô do Brasil: a vida não
é feita dos dias que acumulamos, mas das presenças que cultivamos.
E presença, ao contrário do tempo, ainda é algo que podemos escolher
oferecer.
Enquanto ainda há tempo.
Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e estrategista
digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção entre
comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura e
gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território de
poder e estuda Psicanálise.