🌍 O maracatu nação
encontrou um espaço inesperado para florescer no Japão, onde o grupo Baqueba
mantém viva uma tradição pernambucana desde 2008. Criado por uma intercambista
japonesa que voltou de Recife decidida a continuar tocando maracatu, o grupo
ganhou novo rumo quando Tact Hirose, músico profissional e integrante
desde o início, assumiu a liderança. Ele conta que, ao pesquisar mais
profundamente, sentiu uma forte atração pelo som do Maracatu Nação Porto Rico,
cuja energia ritual e senso de comunidade o impressionaram. Em 2017, decidiu ir
a Recife aprender diretamente com a comunidade.
🥁 A trajetória de Tact
Hirose combina música, pesquisa e articulação cultural. Como profissional
da música, ele ajudou o Baqueba a crescer e criou oportunidades de
apresentações e intercâmbios. Também colaborou para formar uma rede entre
grupos de maracatu de Tóquio, Nanto, Nagoya, Osaka e Kyoto, chamada
Confederação Japonesa de Maracatu. Para ele, o maior desafio não é ensinar os
ritmos, mas transmitir o contexto cultural, histórico e humano que sustenta o
maracatu. As barreiras linguísticas e as referências desconhecidas tornam o processo
ainda mais complexo.
🎎 O público japonês reage
ao maracatu com surpresa e encantamento, especialmente pela força coletiva do
batuque. Mesmo sem entender as letras, muitos sentem a energia transmitida
pelos tambores. Tact Hirose observa que sons graves sempre fizeram parte
da relação dos japoneses com a natureza — terremotos, trovões — e que, quando
organizados na música, despertam outra sensibilidade. Em festivais do interior,
a recepção costuma ser ainda mais calorosa. O Baqueba, assim, abre uma janela
para um Brasil que muitos japoneses ainda não conhecem.
🌿 A espiritualidade ocupa
um lugar central na visão de Tact Hirose, que percebe afinidades entre o
Candomblé e o xintoísmo, ambas tradições ligadas à ancestralidade, à natureza e
às forças invisíveis. Ele recorda a cachoeira sagrada de sua infância e como se
impressionou ao conhecer a imagem de Oxum no Brasil. Para ele, o respeito nasce
da compreensão das diferenças, e essa sensibilidade espiritual o ajuda a
participar das vivências em Recife com sinceridade e reverência. Essa dimensão
fortalece a relação do Baqueba com o Porto Rico.
🚀 Para o futuro, Tact
Hirose sonha em fortalecer a presença do Maracatu Nação Porto Rico na Ásia
e formar novas lideranças jovens no Japão. Ele também desenvolve projetos que
aproximam a arte contemporânea da energia ritual do maracatu, buscando criar
portas de compreensão. Acredita que, ao conhecer uma cultura criada do outro
lado do mundo, jovens japoneses podem compreender melhor suas próprias raízes.
Para ele, o maracatu ainda pode alcançar lugares aonde hoje não chega — e ele
está determinado a fazer isso acontecer.
📸 Fotos: Reprodução Facebook
🎤 ENTREVISTA COMPLETA COM
TACT HIROSE
1. Como surgiu a ideia de criar um grupo de maracatu
nação em Tóquio e qual foi o seu primeiro impulso para iniciar esse movimento?
O BAQUEBA foi fundado em 2008, mas eu não sou o fundador do grupo. Tudo
começou quando uma intercambista japonesa voltou de Recife e quis continuar
tocando maracatu no Japão. Ela reuniu pessoas interessadas na cultura
brasileira e criou o grupo. Eu também fazia parte dos membros iniciais. Naquela
época, já estava começando minha carreira profissional como baixista. Além do
contrabaixo elétrico, eu buscava novas ideias musicais nos instrumentos graves
brasileiros, como a zabumba e o surdo. Com o passar dos anos, continuei
trabalhando profissionalmente com música e, eventualmente, assumi a liderança
do BAQUEBA.
2. Como se estabeleceu a relação do Baqueba com o
Maracatu Nação Porto Rico e o que essa conexão representa para você?
Curiosamente, a fundadora do BAQUEBA havia estudado maracatu em Recife
através de um grupo ligado ao Estrela Brilhante. Mas, à medida que fui
aprofundando minhas pesquisas — na época principalmente através da internet e
de informações transmitidas por outras pessoas — comecei a sentir uma forte
atração pelo som do Maracatu Nação Porto Rico. Eu admirava todas as nações que
conhecia através de gravações e vídeos, mas havia algo especial no Porto Rico.
A presença do agbê e do atabaque dentro do conjunto, a energia ritual, o senso
de comunidade e o orgulho transmitido pela música me impressionaram
profundamente. Naquela época eu já trabalhava como diretor de grupos
comunitários no SUKIYAKI MEETS THE WORLD, um dos maiores festivais de world
music do Japão. Eu já entendia que o maracatu não era apenas uma manifestação
carnavalesca, mas uma tradição ligada à fé, à identidade e à vida comunitária.
Por isso senti que tinha uma responsabilidade pessoal: ir até Recife, bater à
porta do Porto Rico e aprender diretamente com a comunidade. Isso finalmente
aconteceu em 2017.
3. Qual foi o seu caminho até se tornar líder de um grupo
de maracatu no Japão? O que te trouxe para essa tradição?
O Japão é um país curioso. Existem pesquisadores e apaixonados por
praticamente qualquer tradição musical do mundo. Os grupos de maracatu mais
antigos do Japão, por exemplo, surgiram em cidades como Nagoya, Osaka e Kyoto.
Quando viajei pela primeira vez para Recife, recebi muitos conselhos de
integrantes desses grupos pioneiros. Como músico profissional, consegui
contribuir para o crescimento musical do BAQUEBA, mas também para a criação de
oportunidades de apresentação, intercâmbios e projetos culturais. Com o tempo,
ajudei a organizar uma rede de cooperação entre grupos de maracatu de Tóquio,
Nanto, Nagoya, Osaka e Kyoto, chamada Confederação Japonesa de Maracatu. Não
existe uma liderança formal, mas procuramos colaborar através de encontros,
oficinas e turnês de mestres convidados. Para mim, esse trabalho de construção
de pontes é tão importante quanto tocar.
4. Quais são os maiores desafios de ensinar e praticar
maracatu em um país com uma cultura tão diferente da brasileira?
O maior desafio não é a música. Os ritmos podem ser ensinados. O mais
difícil é transmitir o contexto cultural, histórico e humano que existe por
trás deles. Tentamos sempre mostrar que o maracatu não é apenas uma
performance, mas uma tradição viva. Ao mesmo tempo, as barreiras linguísticas
continuam sendo importantes. Não apenas a língua portuguesa, mas também
palavras de origem africana, referências religiosas e aspectos da história
brasileira que não são familiares para a maioria dos japoneses. Por isso,
ensinar maracatu no Japão significa também ensinar histórias, valores e formas
de enxergar o mundo.
5. Como o público japonês reage ao maracatu? O que mais
surpreende ou encanta eles?
O público japonês costuma ficar impressionado com a força coletiva do
batuque. Muitas pessoas não entendem a letra das músicas, mas conseguem sentir
a energia. Curiosamente, tenho a impressão de que o maracatu é recebido com
ainda mais entusiasmo em festivais tradicionais do interior do Japão do que nos
grandes centros urbanos. Existe uma teoria interessante de que, historicamente,
os japoneses desenvolveram uma certa desconfiança em relação aos sons graves e
muito fortes, porque eles lembram terremotos, trovões e outros fenômenos
naturais que sempre fizeram parte da vida neste arquipélago. Mas quando esses
sons aparecem organizados dentro da música, acontece algo diferente. As pessoas
sentem uma conexão profunda com um pulso coletivo, quase como se o batuque
reconectasse o corpo humano aos ritmos da natureza.
6. Como você trabalha a formação do batuque no Baqueba?
Existe algo que você considera essencial para manter a identidade do Porto
Rico?
A técnica é importante, mas não é suficiente. Sempre procuro transmitir
respeito, disciplina, escuta e responsabilidade coletiva. A identidade do Porto
Rico não está apenas nos toques, mas na forma como as pessoas se relacionam
umas com as outras. Ao mesmo tempo, precisamos lidar com a realidade do Japão.
Alguns integrantes são músicos profissionais, mas a maioria trabalha em tempo
integral na enorme metrópole de Tóquio. O tempo é limitado, os espaços também.
Por isso, às vezes utilizamos recursos práticos, como pequenas anotações ou
partituras simplificadas, mesmo sabendo que o maracatu não pode ser reduzido a
uma partitura. Mais importante do que isso é criar oportunidades para que os
integrantes conheçam Pernambuco pessoalmente. Também me esforço para que cada
vez mais pessoas da Comunidade do Bode e do Nação Porto Rico possam visitar o
Japão. Nada substitui a experiência direta de convivência.
7. Para você, qual é o papel da espiritualidade dentro do
maracatu nação e como isso é vivido dentro do Baqueba?
Esta talvez seja a pergunta mais importante. Curiosamente, sinto muitas
afinidades entre o Candomblé e o xintoísmo, a religião tradicional do Japão.
Não porque sejam a mesma coisa, mas porque ambos nasceram de relações profundas
entre comunidade, ancestralidade, natureza e forças invisíveis. Eu venho de uma
pequena região montanhosa do centro do Japão. Na tradição da minha família
existe uma grande cachoeira considerada sagrada. Em ocasiões especiais, meus
ancestrais vestiam roupas brancas, subiam a montanha, faziam oferendas de
alimentos e saquê, cantavam e dançavam. Desde criança eu imaginava aquela
cachoeira como uma mulher vestida de dourado. Quando conheci a imagem de Oxum
no Brasil, fiquei profundamente impressionado. Claro que Candomblé e xintoísmo são
tradições diferentes. Talvez essas semelhanças sejam apenas resultado da forma
como diferentes povos perceberam o mundo ao seu redor. Mas eu valorizo muito
essa espécie de simpatia espiritual. Não procuro misturar as tradições nem
afirmar que são iguais. Pelo contrário. O respeito nasce justamente da
compreensão das diferenças. Talvez por isso eu sempre tenha conseguido
participar das vivências e cerimônias em Recife com sinceridade e reverência.
Sinto que, apesar da distância geográfica e cultural, não estamos tão longe uns
dos outros quanto imaginamos.
8. O Baqueba mantém intercâmbios só com o Nação Porto
Rico ou também com outras nações? Como essas trocas influenciam o grupo?
Quando visitei Pernambuco pela primeira vez, também tive a oportunidade de
conhecer o Leão Coroado e o Estrela Brilhante de Igarassu. Eu gostaria muito de
ter visitado o Encanto da Alegria também, mas infelizmente não houve tempo
suficiente. Todas as nações que conheci possuíam mestres extraordinários e
comunidades admiráveis. Para ser sincero, ainda existem muitos lugares onde
gostaria de aprender. Mas a cultura do maracatu é profunda demais. Existe tanta
história, tanta informação e tantas camadas que é impossível conhecer tudo ao
mesmo tempo. Além disso, também sinto uma responsabilidade com a Comunidade do
Bode, que me acolheu e me ensinou durante todos esses anos. E, claro, durante o
Carnaval as nações também são concorrentes dentro da competição. (risos) Mesmo
assim, tenho profundo respeito por todos os mestres que conheci. Não apenas por
meu pai Chacon, mas também por pessoas como Mestre Afonso e Mestre Gilmar.
Mestre Afonso infelizmente já partiu, mas continua vivo através da comunidade
que ajudou a construir. O que mais admiro em todos eles é a capacidade de
preservar e transmitir a cultura de suas comunidades para as próximas gerações.
9. Como o Baqueba impacta a comunidade brasileira e
japonesa em Tóquio?
Acho que o BAQUEBA funciona como uma ponte entre mundos diferentes. No ano
passado, por exemplo, participamos de um grande festival em Toyota, cidade que
abriga uma das maiores comunidades brasileiras do Japão, e tivemos a honra de
tocar ao lado de Saulo Fernandes, da Bahia. Depois da apresentação, muitos
nordestinos vieram conversar conosco emocionados. Alguns disseram que o som do
maracatu trouxe lembranças da infância, da família e do Carnaval. Momentos como
esse acontecem várias vezes ao longo do ano. Ao mesmo tempo, em Tóquio
costumamos participar de festivais organizados por rádios, eventos culturais e
projetos ligados às artes. Nesses contextos, sinto que o BAQUEBA ocupa um lugar
especial. Enquanto o samba e a MPB já são relativamente conhecidos no Japão, o
maracatu traz algo diferente: o vento do Carnaval de Pernambuco e do Nordeste
brasileiro. Talvez nossa função seja justamente essa: abrir uma pequena janela
para uma parte do Brasil que muitos japoneses ainda não conhecem.
10. Onde você imagina o Baqueba daqui a alguns anos?
Quais sonhos ou projetos você ainda quer realizar com o grupo?
O Japão enfrenta um processo de envelhecimento populacional e o número de
jovens vem diminuindo ano após ano. Mesmo assim, fico feliz em ver que uma nova
geração de batuqueiros está surgindo em várias regiões do país. Meu maior sonho
não é apenas formar bons percussionistas. Quero que esses jovens aprendam não
somente a tocar, mas também a compreender o valor da comunidade, da
responsabilidade coletiva e da liderança. Paradoxalmente, acredito que ao
conhecer uma cultura criada do outro lado do mundo, em comunidades populares de
Pernambuco, eles podem compreender melhor suas próprias raízes e sua própria
sociedade. Outro sonho é fortalecer a presença do Maracatu Nação Porto Rico na
Ásia. Tenho alunos, amigos e parceiros na Coreia do Sul, em Taiwan e em outros
lugares da região. Gostaria de criar oportunidades para que mestres, ogãs,
agbêzeiras e jovens da nação possam ser conhecidos por novos públicos e
estabelecer novas conexões internacionais. Este ano estivemos muito próximos de
realizar um projeto desse tipo. Meu desejo é trazer ao Japão não apenas os
mestres, mas também pessoas que representam a força atual e o futuro da nação.
Nos últimos anos também tenho trabalhado cada vez mais no campo da arte
contemporânea e da criação sonora. Tive a oportunidade de participar de
festivais internacionais importantes ao lado de artistas indígenas do Japão,
criando pontes entre diferentes culturas tradicionais. Existe um projeto que me
acompanha há muitos anos: encontrar formas de apresentar, através da arte
contemporânea, aquela energia única que nasce nos terreiros, nas ruas e nos
momentos em que o ritual se manifesta. Não para substituir a tradição. Pelo
contrário. Quero criar portas para que mais pessoas possam compreender a
profundidade cultural, espiritual e humana que existe dentro do maracatu. Se
conseguirmos fazer isso, acredito que o nome do Maracatu Nação Porto Rico
poderá alcançar lugares onde hoje ainda não chega. Não é um projeto simples.
Mas eu acredito que vai acontecer. Podem esperar.
