Da libido à individuação: caminhos para compreender a nós
mesmos
Por Mariângela Borba
"Do que tanto você tenta fugir quando se distrai?"
A pergunta estava escrita logo nos primeiros degraus da exposição "A
Alma Humana, Você e o Universo de Jung", em cartaz no Instituto Marcos
Hacker de Melo, no Recife. E, como toda boa pergunta, ela não oferecia
respostas. Apenas nos convidava a parar.
Parar para olhar para dentro.
Vivemos em um mundo acelerado, cheio de estímulos e distrações. Corremos de
um compromisso para outro, de uma tela para outra, de uma obrigação para outra,
muitas vezes sem perceber que aquilo de que tentamos fugir continua nos
acompanhando em silêncio.
Nossos medos.
Nossos desejos.
Nossas perdas.
Nossas incompletudes.
Talvez por isso a Psicanálise continue tão atual.
Freud nos ensinou que somos movidos pela libido, a energia do desejo e da
vida. Embora popularmente o termo seja associado apenas à sexualidade, a libido
é muito mais do que isso. Ela está presente em tudo aquilo que fazemos com
paixão, afeto e investimento emocional.
Ela está no trabalho realizado com amor.
Na amizade cultivada com dedicação.
Na escrita que nasce da necessidade de dizer algo ao mundo.
Na vontade de construir um projeto, aprender algo novo ou recomeçar.
Tudo o que nos move é expressão da nossa energia vital.
Mas, se Freud nos mostrou que somos movidos pelo desejo, Jung deu um passo
além e perguntou:
Para onde esse desejo quer nos conduzir?
Para ele, a vida humana é uma jornada de integração. Não somos apenas aquilo
que mostramos ao mundo. Há em nós partes escondidas, esquecidas, negadas ou
reprimidas.
A isso ele chamou de Sombra.
Foi impossível não pensar nisso ao me deparar, na exposição, com um enorme
escaravelho dourado.
Lindo!
Imponente!
Mas, ao mesmo tempo, inquietante.
Fascinante e asqueroso!
Como tantas coisas que habitam dentro de nós e que insistimos em reconhecer
apenas nos outros.
O escaravelho, símbolo de transformação e renascimento, parece nos lembrar
que aquilo que mais nos inquieta pode também ser o que mais precisa ser
integrado.
Quantas vezes criticamos no outro aquilo que, de alguma forma, também habita
em nós?
Quantas vezes combatemos determinadas atitudes porque elas nos confrontam
com aspectos que ainda não conseguimos reconhecer em nossa própria história?
Talvez um dos maiores desafios da vida seja justamente este: olhar para
nossas sombras sem medo.
Reconhecer nossas fragilidades.
Aceitar nossas contradições.
Entender que somos feitos de luz e também de escuridão.
Foi isso que mais me tocou na exposição. A percepção de que a chamada
"vida comum", cheia de tarefas, responsabilidades e desafios
cotidianos, pode ser uma porta de entrada para os mistérios do inconsciente e
para um conhecimento mais profundo de nós mesmos.
Jung chamou esse caminho de individuação.
Não se trata de se tornar perfeito.
Nem de eliminar nossos defeitos.
Mas de nos tornarmos quem realmente somos.
Talvez prosperidade também tenha a ver com isso.
Com a coragem de deixar para trás versões de nós mesmos que já não cabem
mais.
Com a disposição de rever caminhos.
Com a humildade de admitir que ainda estamos em construção.
Porque nem toda história precisa terminar para nos transformar. Algumas
apenas nos atravessam e nos deixam diferentes de quem éramos antes.
E talvez seja justamente aí que o amor encontre seu sentido mais profundo.
Recentemente, o Papa Leão XIV afirmou na Praça São Pedro algo de uma beleza
desarmante:
"O amor também é perda. É difícil compreendê-lo, especialmente em um
mundo no qual perder parece ser uma fraqueza e no qual se vive obcecados por
ter e possuir."
Vivemos em uma sociedade que valoriza o acúmulo: de bens, de títulos, de
certezas, de pessoas.
Mas o amor verdadeiro segue outra lógica.
A lógica do dom.
Do compartilhamento.
Da entrega.
Do espaço que abrimos em nossa vida para acolher o outro.
Perdemos um pouco do nosso tempo para ouvir um amigo.
Perdemos um pouco do nosso conforto para ajudar alguém.
Perdemos um pouco do nosso próprio ego para permitir que o outro exista.
Paradoxalmente, é nessa aparente perda que ganhamos humanidade.
É quando deixamos de possuir que aprendemos a amar.
É quando deixamos de controlar tudo que a vida encontra espaço para
florescer.
Talvez não seja por acaso que, em tempos tão acelerados, a saúde mental
tenha ganhado espaço também nas discussões sobre o trabalho. A recente
atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), ao incluir os riscos
psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais, reconhece algo que a
experiência humana já nos ensinava há muito tempo: não somos máquinas de
produzir. Excesso de cobranças, sobrecarga, conflitos, assédio e a incapacidade
de estabelecer limites também adoecem.
Cuidar da saúde mental é, portanto, mais do que uma necessidade individual.
É um compromisso coletivo e institucional. Talvez prosperidade também seja
isso: criar ambientes em que seja possível trabalhar, produzir e conviver sem
perder de vista aquilo que nos torna humanos.
Curiosamente, o Evangelho já anunciava, há quase dois milênios, algo que
Freud e Jung, cada um a seu modo, também nos ajudaram a compreender: a vida não
se realiza no fechamento, mas na integração.
No encontro.
Na escuta.
Na capacidade de reconhecer nossas sombras e, ainda assim, continuar
caminhando.
Na exposição, havia ainda um espaço para que cada visitante deixasse um
pensamento.
Diante daquela grande teia de palavras e sentimentos, escrevi:
"Tenho medo, do medo que dá."
A frase me veio à mente quase como um sussurro da canção de Lenine.
Talvez porque crescer assuste.
Porque mudar assuste.
Porque amar assuste.
Porque recomeçar assuste.
Porque olhar para dentro também assuste.
Mas, como escreveu Jung:
"Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou."
Tudo aquilo que repousa em nós deseja tornar-se acontecimento.
Nossos talentos.
Nossos sonhos.
Nossos afetos.
Nossa vocação.
Talvez a verdadeira prosperidade não esteja em ter mais, mas em nos
tornarmos mais conscientes de quem somos.
Porque, no fim das contas, talvez a vida seja justamente isso: uma sucessão
de nascimentos interiores.
E então, o que, dentro de você, está pedindo para nascer?
Mariângela Borba é jornalista, psicanalista em formação e uma
observadora apaixonada da alma humana.