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domingo, 1 de novembro de 2026
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#SendoProsperidade com Mariângela Borba
Há perdas que não cabem em um funeral
Talvez seja essa uma das faces menos percebidas do luto: além da
ausência do outro, precisamos encontrar nosso lugar em uma realidade que já não
é a mesma.
Por Mariângela Borba
Existem perdas que não cabem em uma certidão de óbito. Algumas acontecem
quando um relacionamento termina, um projeto deixa de existir, o corpo já não
responde como antes ou percebemos que determinada etapa da vida não voltará.
Nem todas são reconhecidas socialmente como perdas, embora possam transformar
profundamente a maneira como nos percebemos e nos relacionamos com o mundo.
O luto, portanto, não se restringe à morte. Também pode surgir diante de
rupturas, mudanças e despedidas que exigem a reconstrução de referências,
vínculos e projetos.
Em Luto e melancolia (1917), Sigmund Freud estabelece distinções
importantes entre esses processos psíquicos. O luto envolve um trabalho de
elaboração diante da perda de alguém ou de algo investido afetivamente. Não
significa simplesmente baixar a cabeça e seguir em frente, muito menos cumprir
etapas em um prazo determinado. Cada experiência tem sua singularidade.
Mas o que acontece quando, além daquilo que perdemos, também precisamos
reconstruir o lugar que ocupávamos no mundo?
Uma separação pode modificar nosso sentido de pertencimento. O encerramento
de uma carreira pode exigir a reconstrução da identidade. O envelhecimento, por
sua vez, pode trazer mudanças que se tornam ainda mais difíceis quando a
sociedade insiste em associar juventude à produtividade e relevância. O
etarismo acrescenta outra forma de perda: a do reconhecimento social. Muitas
vezes, capacidades, desejos e competências permanecem, mas a aparência passa a
ser utilizada como justificativa para desqualificar o sujeito. Como se
amadurecer significasse perder a validade.
Afinal, envelhecer não é necessariamente amadurecer. Há pessoas que acumulam
anos sem desenvolver a capacidade de rever escolhas, respeitar diferenças e
reconhecer os próprios limites. A maturidade não vem automaticamente com o
tempo: exige disposição para aprender, rever atitudes e compreender o outro. A
grandeza também se aprende.
A Doutrina Social da Igreja oferece uma contribuição importante para essa
reflexão ao reafirmar a dignidade inviolável da pessoa humana e a
responsabilidade coletiva diante das vulnerabilidades. A dignidade não diminui
com a idade, as perdas ou as limitações. Solidariedade também significa acolher
quem sofre sem estabelecer prazos, comparar experiências ou exigir uma
recuperação que obedeça às expectativas alheias.
Neste início de novembro, quando a tradição cristã celebra Todos os Santos e
a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, memória e esperança ganham
significado especial. Lembrar quem partiu não significa permanecer preso ao
passado. É reconhecer os vínculos que nos constituíram, sem deixar de
participar da vida que continua acontecendo.
Prosperar não é conservar tudo o que tivemos, evitar despedidas ou fingir
que determinadas ausências deixaram de doer. É também encontrar possibilidades
de reconstrução, preservar o que permanece significativo e permitir-se novos
encontros e experiências.
Como nos lembra Gonzaguinha, em O que é, o que é?, ninguém quer a
morte, só saúde e sorte. Afinal, há uma vida inteira acontecendo para além das
nossas perdas.
E você, já parou para pensar em quantas vezes precisou se despedir
de uma fase da vida, de um projeto ou de uma versão de si mesmo para continuar
seguindo em frente?
Mariângela Borba é jornalista,
produtora cultural e estrategista digital. Especialista em Cultura
Pernambucana, atua na interseção entre comunicação, cultura e política. Com
passagem pelo Ministério da Cultura e gestões públicas, integra a AIP e a UBE.
Pesquisa a palavra como território de poder e estuda Psicanálise.