Eu sou Gilberto Trindade — artista de circo, palhaço, pesquisador — e venho atuando no mundo circense há mais de duas décadas. Para mim, o circo não é apenas arte; é também uma forma profunda de treinamento corporal e mental. Nos meus anos de estrada, tenho visto de perto como a aula de circo — seja no tecido, na lira, no solo ou nos malabares — transforma mais do que músculos: transforma consciência, autoestima e equilíbrio interior.
Força, postura e consciência corporal
Quando subimos no tecido acrobático, por exemplo, não estamos apenas brincando no ar. Cada movimento exige força genuína — braços, costas, abdômen. É como escalar a si mesmo: você sustenta seu peso, controla o tecido, mantém uma postura alinhada. Esse esforço fortalece não só a musculatura, mas a estabilidade do core e a consciência de como usamos o corpo no espaço. É um treino que, para mim, se parece muito com uma meditação em movimento.
O desafio dos aéreos: lira e trapézio
Nas acrobacias suspensas — lira, trapézio —, o corpo se torna leve e pesado ao mesmo tempo. A sustentação no ar ativa os estabilizadores da coluna, o transverso abdominal e os músculos lombares. Isso melhora a postura e ajuda a prevenir dores nas costas. Mas há mais: esse trabalho exige equilíbrio, controle e entrega. Para mim, cada pose suspensa é um momento de aprender a confiar em mim mesmo, e de me reconectar com a gravidade de uma forma poética.
Acrobacias no solo: resistência + flexibilidade
No solo, fazemos pontes, rolamentos, paradas de mão — exercícios que não são só divertidos, mas desafiadores. Esse tipo de acrobacia fortalece o core e desenvolve a flexibilidade, o que é essencial para quem quer manter mobilidade e resistência ao longo dos anos. Além disso, praticar no solo me lembra minha infância no picadeiro: você cai, levanta, repete, até o movimento fluir. É disciplina, mas também liberdade.
Malabares e equilíbrio: treino para a mente
Quando ensino malabares, corda bamba ou arame, sempre digo aos meus alunos que é uma ginástica para a mente. Jogar bolas ou bastões enquanto o corpo se equilibra exige foco, coordenação olho-mão, rapidez de pensamento. Ao mesmo tempo, esses exercícios promovem uma calma interior — quando a malabares flui, minha mente silencia e se concentra apenas na próxima bola, no movimento que vem a seguir. Essa “atenção plena circense” é para mim um dos maiores presentes dessa prática.
A beleza da superação e da diversão
Algo que me fascina no circo é o caráter lúdico e o senso de conquista. Cada avanço — subir mais alto no tecido, conseguir uma parada de mão, acertar uma sequência de malabares — traz uma alegria genuína. E não é só físico: é emocional. Ver um aluno superando o medo, ganhando confiança, mostrando algo pela primeira vez… isso me lembra por que escolhi esse caminho. O circo nos ensina que o esforço pode ser leve e que o prazer de aprender vale cada gota de suor.
Circo como caminho para o bem-estar
Para mim, o circo é uma ponte entre o corpo e a alma. Não é apenas um treino para manter a forma: é um espaço de autoconhecimento, expressão e cura. Ao longo dos meus 21 anos de pesquisa, vi alunos de todas as idades se transformarem. Alguns chegam tímidos, com inseguranças corporais; outros, cheios de energia, ansiosos por desafio. E todos saem mais conectados consigo mesmos, com mais equilíbrio — físico e emocional.
Se eu pudesse dar um conselho para quem está pensando em experimentar uma aula de circo: mergulhe de cabeça. Deixe-se surpreender pelo pano que balança, pelo aro que gira, pelas bolas que voam. Ali, não só treinamos o corpo: treinamos a confiança, a coragem e a alegria de mover-se como criança — mas com toda a força de um artista adulto.
[11/01, 09:29] circo da trindade: 🎪 Palhaço, Comicidade e Arte Circense
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Gilberto Trindade é ator, palhaço, professor e diretor-geral do Circo da Trindade, companhia que fundou em 2004 e onde desenvolve pesquisa contínua sobre corpo, riso, ancestralidade e poéticas circenses. Graduado em Ciências Sociais e com formações em História, Filosofia, História da Arte e Pedagogia Waldorf, atua há mais de 25 anos na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém.
Como diretor e realizador, assina obras como O Circo da Viúva (livro, documentário e espetáculo), além dos curtas À L’attente e Siempre Siete. No audiovisual, integra produções como A Força da Paixão, Maria e o Cangaço (Disney+) e Guararapes.
Foi gerente de Circo da Prefeitura do Recife, criou a Mostra de Circo do Recife e participa de curadorias e formações em diversas instituições. Autor de artigos e colaborador em pesquisas sobre circo, segue unindo arte, pedagogia e espiritualidade na criação de caminhos para a cultura circense no Brasil.