Entre a Encarnação e a Ressurreição: a fé que se faz
morada — em memória de Padre Romeu da Fonte
Por Mariângela Borba.
Na tarde deste domingo, 22 de março, a Arquidiocese de
Olinda e Recife se despediu de Padre Romeu da Fonte, o sacerdote mais antigo em
atividade e longevo de sua história recente.
Antes dele, o primeiro com quem convivi — também marcado
pela longevidade — foi o Monsenhor Airton Guedes, a quem eu, ainda criança,
chamava carinhosamente de “Guedinho”. Ele ria e me respondia: “menina”. À época, era reconhecido como o padre em
exercício mais antigo do mundo e faleceu aos 102 anos. Dois encontros que, de
formas distintas, me ensinaram sobre presença e permanência.
Para além de sua trajetória institucional, sua presença
permanece inscrita em muitas memórias — inclusive na minha.
Foi com ele que aprendi a cantar a Salve Rainha. Ainda
criança, tímida, mas tocada pela beleza daquele gesto, eu cantava. E minha avó,
Cármen, sempre pedia que eu repetisse quando ia à casa dela — emocionada. Havia
ali algo que ultrapassava a oração: era afeto, transmissão de fé, vínculo.
Anos depois, no dia do sepultamento dela, foi essa mesma
oração que me sustentou. E eu cantei novamente. Não como repetição, mas como
reconhecimento de um laço que não se desfaz.
Hoje, cada vez que ouço ou canto a Salve Rainha, não se
trata apenas de lembrança. É presença.
Minha avó.
Padre Romeu.
Mamãe, que me conduzia à igreja junto com papai e meu irmão.
Uma história que permanece.
Talvez seja justamente essa experiência — de uma presença
que não se perde — que ajude a compreender, de forma mais concreta, um dos
fundamentos da fé cristã.
“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).
O lema da Campanha da Fraternidade 2026, proposta pela CNBB,
retoma essa afirmação central ao recolocar em pauta o sentido da Encarnação
como presença real de Deus na história humana.
À luz do Evangelho de João, a tradição da Igreja Católica
compreende que Encarnação e Ressurreição não são eventos isolados, mas
dimensões inseparáveis de um único mistério de salvação.
Não se trata de escolher entre uma ou outra.
A Encarnação torna possível a Ressurreição.
E a Ressurreição revela o sentido pleno da Encarnação.
O prólogo de João apresenta essa verdade com profundidade:
“No princípio era o Verbo… e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). E é esse Verbo que “se
fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). A tradição católica interpreta
esse gesto como Deus que “arma sua tenda” na humanidade — não de forma
simbólica, mas concreta, histórica, encarnada.
Ao assumir a condição humana — exceto o pecado — Cristo se
aproxima das dores reais do mundo: dos pobres, dos doentes, dos que não têm
lugar. Sua presença revela que a fé cristã não se constrói à margem da
realidade, mas dentro dela.
É essa Encarnação que torna possível a Ressurreição.
No capítulo 20 do Evangelho de João, a Ressurreição aparece
como plenitude desse caminho. Cristo ressuscita em corpo e alma, reafirmando a
dignidade da vida humana em sua totalidade. Ao aparecer a Maria Madalena e aos
discípulos — incluindo Tomé —, revela que não abandona os seus, mas permanece.
Na perspectiva joanina, paixão, morte e ressurreição
constituem a “hora” de Jesus: um único movimento de entrega e glorificação. A
cruz não é derrota, mas passagem. A morte não encerra — transforma.
A Encarnação permite que Deus assuma a morte humana.
A Ressurreição revela que essa morte não tem a última
palavra.
Essa compreensão ilumina diretamente o tema da moradia,
central na reflexão da Campanha da Fraternidade.
Se Deus escolhe habitar entre nós, a ausência de moradia
digna deixa de ser apenas um problema social e passa a interpelar a consciência
ética, política e espiritual.
A casa não é somente estrutura física. É espaço de formação,
de convivência e de transmissão de valores. É onde se aprende — muitas vezes
com pais e avós — os fundamentos da vida comunitária: respeito, solidariedade,
amor.
Negar esse direito é comprometer a própria dignidade humana.
Nesse sentido, a Doutrina Social da Igreja aponta
responsabilidades claras. Cabe ao poder público garantir políticas
habitacionais que assegurem condições dignas de vida. Mas também interpela a
sociedade a construir relações mais justas, solidárias e comprometidas com o
bem comum.
Não se trata apenas de construir casas.
Trata-se de garantir pertencimento.
E, de algum modo, essa compreensão também retorna ao campo
da memória.
Porque há moradas que não são feitas de paredes —
mas de vínculos, de fé, de experiências que permanecem.
Hoje, quando canto a Salve Rainha, sei que não canto só.
Canto com a lembrança da minha avó.
Canto com aquilo que aprendi com Padre Romeu.
Canto com tudo o que, de alguma forma, ainda habita em mim.
À luz da fé cristã, essa permanência encontra sentido na
própria Ressurreição — que não apaga a história vivida, mas a transfigura.
Como professa o Credo Niceno-Constantinopolitano, “e o seu
Reino não terá fim”.
Prosperar, então, é isso:
construir moradas dignas no mundo —
e preservar, com ternura, as moradas que o amor edificou em
nós.
Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em
Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no
Ministério da Cultura, em redações e emissoras de rádio, TV e jornais, além de
integrar gestões públicas municipais.
Integra a AIP e a UBE e possui formação também em Doutrina
Social da Igreja. Pesquisa a palavra como território político e relacional, na
interseção entre comunicação, cultura e direitos humanos.
Dedica-se atualmente aos estudos da Psicanálise,
investigando as relações entre linguagem, memória e experiência social.