🎶 Depois de transitar com desenvoltura pela televisão, pelo cinema, pelo teatro e pela literatura, o artista decidiu que era o momento exato de colocar para fora mais de sessenta composições que guardava e alimentar o sonho antigo de cantar suas próprias histórias e reflexões.
🌟 O lançamento de seu mais recente trabalho musical, intitulado Contrato Social, funciona como um verdadeiro manifesto poético que convida o público a refletir profundamente sobre as relações humanas, o autoconhecimento, a filosofia e a reconexão essencial com a nossa natureza primitiva e sagrada.
💫 Entre lembranças de sua infância ligada ao piano e ao coral, além de desafios muito duros superados ao longo da vida como um câncer e um atropelamento, o artista transformou dores e vivências em arte imediata, visceral, pulsante e marcada por muita sinceridade.
📸 Fotos: Reprodução Redes Sociais
💬 Entrevista na Íntegra
1. Você construiu uma carreira reconhecida como ator antes de se dedicar mais intensamente à música. Em que momento percebeu que cantar e compor precisavam ocupar um espaço maior na sua vida?A composição veio muito cedo na minha vida, praticamente junto com a escrita. Eu comecei a escrever ainda garoto e, com 13, 14 anos, já brincava de compor, como uma espécie de desafio comigo mesmo. Fiz piano quando era criança, participei de coral e sempre encontrava alguma maneira de estar perto da música.
Na verdade, o sonho de ser cantor veio antes mesmo do sonho de ser ator. Eu gostava de novela, de cinema, de teatro, claro, mas, quando imaginava meu futuro, primeiro me via cantando.
Depois o esporte me levou para outro caminho, fui fazer Educação Física e, mais tarde, veio a atuação. Mas a música nunca deixou de estar presente. Sempre procurei fazer musicais, continuei estudando canto e, durante muitos anos, alimentava a ideia de montar um show, de participar de programas como The Voice e Ídolos. Também me inscrevi em festivais de música, mandei músicas para festivais da Globo, cheguei a mandar até paródia para programa do SBT. Eu sempre estava tentando encontrar uma forma de fazer a música acontecer.
Ao mesmo tempo, eu me cobrava muito. Queria ter um repertório que realmente me representasse, queria qualidade, queria encontrar uma identidade própria. Por isso, durante muito tempo, fui adiando esse momento.
Até que, no ano passado, tive o que eu costumo chamar de um “surto criativo”. Comecei a compor de uma maneira muito intensa e, de repente, tinha dezenas de músicas. Hoje já são mais de 60 composições.
Então, percebi que não fazia mais sentido continuar guardando isso. Aos 46 anos, entendi que tinha chegado o momento de parar de adiar e simplesmente mostrar essas músicas para o mundo. É isso que estou fazendo agora: colocando para fora uma parte de mim que sempre esteve ali.
2. O que a música permite expressar que a atuação, por mais profunda que seja, não consegue alcançar?A música, para mim, tem a capacidade de sintetizar em alguns minutos algo que uma obra de audiovisual ou de teatro talvez leve duas horas para construir. Ela consegue entregar uma mensagem de maneira muito direta, mas ao mesmo tempo poética, metafórica e extremamente intensa.
E essa intensidade não vem só da letra. Pode estar em um som, em um instrumento, em um timbre de voz, em um melisma, em uma palavra. Às vezes, existe alguma coisa na própria sonoridade que provoca uma reação antes mesmo de você entender racionalmente o que está sendo dito.
A música também pode entrar num lugar quase de mantra, de oração, de contato com o sagrado, com a palavra, com o humano, com o chão, com a dança, com aquilo que existe de mais tribal em nós. É como se todas essas coisas pudessem acontecer ao mesmo tempo.
A catarse, na música, pode acontecer quase imediatamente. E talvez seja isso que sempre tenha me atraído tanto: essa capacidade de, em poucos minutos, colocar uma ideia para fora, gritar aquilo que você pensa, provocar uma emoção e contagiar outras pessoas.
Para mim, é uma das experiências mais potentes que as artes humanas podem proporcionar justamente por essa capacidade de ser tão imediata e, ao mesmo tempo, tão profunda.
3. Como suas experiências no teatro, na televisão e no cinema influenciam a maneira como você escreve suas canções?Tudo o que eu vivi reflete na minha música. As experiências no teatro, na televisão, no cinema, na literatura e, principalmente, as experiências da própria vida.
Eu sou escritor, dramaturgo, roteirista, ator. Faço isso há 25 anos e aprendi a organizar o mundo como histórias. Eu uso storytelling praticamente em tudo o que faço. Está nos meus livros, como o "Eu Conto, Você Conto"; "Sou Eu", que lancei no começo deste ano, e também está nas minhas músicas. Muitas letras nasceram de poesias que eu tinha escrito, de contos, de ideias que estavam guardadas há anos.
Minha obra vai transitando por todas essas vertentes que eu exerço. Não são coisas separadas. É tudo parte do mesmo artista. São as minhas histórias.
Então, quando eu escrevo uma música, está ali tudo o que eu vivi: meus tombos, minhas quedas, as cirurgias, um atropelamento, o câncer, o nascimento dos meus filhos, minha relação com minha esposa, as coisas em que acredito, minha visão de mundo, minhas reflexões sobre a sociedade, sobre filosofia, autoconhecimento e sobre Deus.
É por isso que o álbum se chama Contrato Social. Ele é, de certa maneira, um manifesto poético sobre a forma como eu enxergo o mundo e as relações humanas. E, ao mesmo tempo, eu quis que essa mensagem pudesse ultrapassar fronteiras. Por isso existem também duas músicas em inglês no álbum.
No fim, a música é mais uma linguagem para contar as mesmas histórias que eu venho contando há décadas. Só que, dessa vez, são histórias que vêm diretamente de mim.
4. Existe uma história pessoal ou um momento de transformação que marcou definitivamente sua identidade como artista e compositor?Existem muitos momentos que poderiam ser considerados transformadores na minha vida. Aos 27 anos, tive um câncer. Depois passei por um atropelamento e por um acidente em que quebrei uma perna. Foram situações muito duras, algumas delas me colocaram literalmente diante da possibilidade da morte e me fizeram olhar para a vida de uma maneira diferente.
Também vivi uma trajetória muito intensa de investigação espiritual. Durante cerca de dez anos, me dediquei profundamente a esse campo, buscando conhecimento em diferentes áreas e tentando compreender melhor o ser humano, a existência e aquilo em que acredito.
Mas, se eu tivesse que apontar um verdadeiro ponto de virada na minha identidade artística, diria que foi o ano passado. Eu estava atravessando uma crise profissional e pessoal e, naquele momento, aconteceu uma espécie de desbloqueio criativo. Tive o que chamo de um “surto criativo”.
Comecei a escrever e compor de uma maneira muito intensa. As ideias simplesmente começaram a vir, e percebi que havia ali um universo inteiro que eu precisava colocar para fora. Foi quando compus dezenas de músicas e comecei a enxergar com clareza que aquilo não era apenas uma vontade antiga de cantar. Era uma parte fundamental de quem eu sou como artista.
Talvez a grande transformação tenha sido essa: entender que todas aquelas experiências — as dores, as perdas, os encontros, a espiritualidade, as perguntas que sempre fiz sobre a vida — estavam encontrando uma linguagem própria na música.
5. Quando você compõe, parte mais da emoção, da reflexão ou da observação do mundo ao seu redor?Eu acho que parto de tudo: da emoção, da reflexão, da observação do mundo, das experiências que vivi. Não existe uma única porta de entrada para uma música.
Mas existe um momento do processo em que eu simplesmente procuro deixar vir aquilo que precisa vir, a mensagem que, naquele momento, precisa ser colocada para fora. Eu acredito muito na minha espiritualidade e sinto que ela também participa desse processo criativo.
Muitas vezes tenho a sensação de que estou tentando traduzir em música algumas coisas que acredito que a nossa sociedade precisa resgatar, principalmente em relação aos valores humanos. Por isso, gosto de pensar que minhas letras têm um sentido de edificar, mas também de questionar, criticar e apontar aquilo que me incomoda.
Só que sem me colocar como dono da verdade. Eu também estou dentro dessas contradições. Eu não escrevo de um lugar de superioridade. Estou tentando entender tudo isso junto com quem me escuta.
Tem até um verso meu que resume muito essa postura: “Eu não sou nenhum santo, muito menos um rei. Sou um cara buscando um pouco de paz e quem sabe amor ainda é capaz.”
Acho que é exatamente isso: eu observo, questiono, sinto, reflito e deixo a música encontrar a forma que ela precisa ter.
6. Suas músicas trazem reflexões sobre comportamento humano e sociedade. Quais temas você sente que precisam ser debatidos com mais profundidade através da arte?Eu acho que existem muitos valores humanos que precisam ser resgatados. E, para mim, isso passa por uma reconexão com o sagrado e, ao mesmo tempo, com aquilo que existe de mais primitivo em nós.
Nós somos animais. Compartilhamos este planeta com outras espécies, mas construímos uma sociedade extremamente sofisticada, cheia de tecnologia, objetos, símbolos e estruturas que também criam diferenças e hierarquias entre nós. Andamos de carro, de avião, usamos relógios, celulares, roupas, construímos cidades inteiras. Desenvolvemos uma capacidade enorme de transformar o mundo ao nosso redor.
Mas, no fim das contas, continuamos sendo seres humanos vivendo em um planeta que é a nossa casa. E, paradoxalmente, enquanto avançamos tanto externamente, muitas vezes parece que estamos nos desconectando de nós mesmos, dos outros e até da própria natureza.
Estamos destruindo a nossa casa e, de certa maneira, também estamos nos destruindo. Criamos cada vez mais formas de conexão tecnológica, mas podemos estar vivendo uma experiência de isolamento humano cada vez maior. As redes sociais são um exemplo muito evidente dessa contradição.
Então, através da minha música, eu tento provocar perguntas. Não tenho a pretensão de oferecer respostas definitivas. Quero provocar um movimento em quem escuta: questionar, olhar para dentro, buscar autoconhecimento e talvez recuperar uma conexão com o sagrado e com aquilo que existe de mais essencial e primitivo em nós.
Para mim, esse encontro entre o humano, o primitivo e o sagrado é uma das grandes questões da minha obra.
7. Como foi o processo de assumir sua voz artística própria, sem o apoio de um personagem ou de um roteiro?Foi o processo mais libertador da minha vida e, ao mesmo tempo, um dos mais assustadores.
Porque agora sou eu. Não existe um personagem para me proteger, um roteiro para me orientar ou uma história que foi escrita por outra pessoa. Sou eu assumindo aquilo que penso, aquilo que sinto e aquilo que vivi diante do mundo.
E isso é assustador e maravilhoso ao mesmo tempo.
Não significa que eu não queira mais viver personagens como ator. Muito pelo contrário. Eu amo a atuação e continuo sendo ator. Mas existe uma diferença muito grande entre interpretar uma história e colocar a sua própria história em cena.
Hoje eu sinto que o meu personagem principal sou eu mesmo. E as histórias que eu quero contar são as que vivi ao longo desses 46 anos. Só que, agora, em vez de interpretá-las, eu posso cantá-las.
8. Em algum momento você teve receio de que o público o enxergasse apenas como ator? Como lidou com esse desafio ao lançar seus trabalhos musicais?Não tenho esse receio. Pelo contrário: acho que tudo o que construí até aqui só agrega à minha chegada à música.
Esses 25 anos de palco, televisão e cinema me deram experiências e oportunidades que provavelmente eu não teria se estivesse simplesmente começando agora como um cantor desconhecido. Inclusive, tive recentemente uma pauta no SBT justamente por essa trajetória anterior, e sou muito grato por isso.
Uma coisa não exclui a outra. Eu sempre me enxerguei como um artista multifacetado. Além de ator, sou escritor, dramaturgo e roteirista. Também danço, faço sapateado e já me aventurei em outras formas de expressão artística. São linguagens diferentes, mas todas fazem parte de quem eu sou.
E, no meio de tudo isso, existe um lugar onde eu me sinto especialmente pleno: o palco. E cantar sempre foi um sonho. Durante toda a minha vida, sempre que tive oportunidade, eu cantei. A diferença é que agora estou cantando as minhas próprias músicas.
Então, para mim, não existe uma ruptura entre o ator que eu fui e o músico que estou sendo. Existe uma continuidade. Estou levando toda essa bagagem comigo para essa nova jornada.
E acho que o público também vai, aos poucos, embarcando nessa transformação comigo. Sem ansiedade, sem tentar forçar nada. Deixando as coisas acontecerem naturalmente.
9. Qual foi o aprendizado mais importante que a música trouxe para sua vida que a atuação ainda não havia ensinado?A música me trouxe, principalmente, a experiência de voltar a ser aprendiz.
Depois de 25 anos trabalhando como ator, existe uma bagagem profissional, um ofício que eu conheço. Na música, apesar de cantar e compor há muitos anos, estou entrando em um universo que tem uma dinâmica própria e que eu ainda estou descobrindo.
Tenho aprendido diariamente como funciona o mercado, como são os lançamentos, como construir uma carreira musical, como fazer conexões e encontrar as pessoas certas. Tenho conhecido artistas novos, gente extremamente talentosa, de todas as idades e de todos os cantos do Brasil. E isso tem sido muito estimulante.
Mas também existe o aprendizado do próprio fazer artístico. É menos glamour e mais suor. É prática, dedicação, estudo, ensaio, reaprender a tocar violão, cantar, testar, errar, melhorar e continuar fazendo.
Talvez seja esse um dos grandes aprendizados que a música está me trazendo: entender que, independentemente de quanto tempo você tenha de carreira, é preciso estar disposto a começar de novo em alguma medida, a aprender com os outros e a colocar o trabalho na frente da vaidade.
Estou descobrindo um novo ofício sem deixar de ser quem eu já era. E isso tem sido muito rico.
10. Quando você olha para toda a sua trajetória, qual legado artístico gostaria de deixar para as próximas gerações?
Acho muito cedo para falar em legado artístico. Eu ainda estou no meio do processo. A gente não consegue enxergar o todo enquanto está dentro da parte. Então, prefiro fazer o meu trabalho e deixar que, no futuro, as pessoas façam os julgamentos que acharem necessários sobre aquilo que eu construí.
Acredito na possibilidade de escrever um novo contrato social, de descobrir um novo caminho e de perceber que o paraíso também está dentro da gente.
Se a minha obra puder provocar esse tipo de reflexão em alguém — fazer uma pessoa se olhar por dentro, questionar suas escolhas, buscar ser um pouco melhor e lembrar que ainda é possível recomeçar — já terá valido a pena.
E talvez eu já esteja deixando algumas pistas disso nos próprios títulos das minhas músicas: Contrato Social, Paraíso, Caminho, Cadê Você?… São perguntas, provocações e possibilidades de movimento.
No fim, é isso que eu quero fazer: deixar perguntas que continuem trabalhando dentro das pessoas.
Pergunta de encerramento: Se sua carreira pudesse ser resumida em uma única mensagem para o público, qual seria essa mensagem hoje?
O que eu quero deixar é uma mensagem; Eu acredito que o ser humano é uma das obras mais bonitas e potentes de Deus e que existe em nós uma capacidade enorme de transformação. Podemos ser mais humanos, mais amorosos, mais generosos, mais felizes, mais humildes, mais serenos, mais gratos, mais altruístas. Podemos escolher quem queremos ser e, quando necessário, podemos recomeçar.