segunda-feira, 13 de julho de 2026
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domingo, 12 de julho de 2026
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#VcNoBlog Profª Ynah Nascimento
O que muda quando uma mulher de 40 anos aprende a ECOAR
Ynah de Souza Nascimento
Estamos tão acostumados ao cotidiano ato de ler que é raro parar um pouco para refletir na complexidade desse ato e nas portas que se abrem para um leitor ou leitora que não se limita à superficialidade da leitura nesse mundo digitalizado em que estamos vivendo.
Essa superficialidade tem forma reconhecível. É o texto percorrido em diagonal, a busca pelo resumo antes do conteúdo, a leitura interrompida a cada notificação, o hábito de escanear frases em vez de atravessá-las. Estudos de neurociência da leitura já mostram que esse padrão de consumo rápido tende a fortalecer circuitos de leitura superficial no cérebro, em detrimento dos circuitos ligados à leitura profunda, aqueles responsáveis por inferência, empatia narrativa e pensamento crítico. Não é só uma questão de gosto literário. É uma questão de que tipo de rede neural está sendo exercitada e qual está sendo deixada de lado. O que tudo isso pode prejudicar, ou facilitar, para quem deseja construir uma vida mais plena?
Depois dos 40, a maioria das mulheres já leu centenas de livros. Livros de faculdade, livros para ajudar o filho na escola, livros de desenvolvimento pessoal empilhados na cabeceira, livros abandonados no capítulo três porque a vida não deu tempo de terminar. O que quase mulher alguma aprendeu a fazer foi uma leitura que funcione como espelho de autoconhecimento.
Essa é a distinção que sustenta o LeiturAção, metodologia que venho desenvolvendo há anos como professora de Letras e pesquisadora em Educação. A leitura, na maior parte da vida adulta, funciona como consumo de conteúdo. Ler pra saber, pra render um assunto, pra terminar antes de dormir. O que o LeiturAção propõe é uma virada nessa relação: um livro ou um filme deixa de ser só narrativa externa e passa a funcionar como dispositivo capaz de revelar padrões, feridas e desejos que a rotina não dá espaço pra encarar.
Por que os 40 são um ponto de virada
Aos 40 e poucos, boa parte das mulheres carrega duas décadas de decisões tomadas em função de outras pessoas. Filhos, carreira, casa, cuidado com os pais que envelhecem. É uma fase em que a pergunta "quem eu escolhi ser" começa a concorrer com a pergunta "quem eu fui obrigada a ser pra dar conta de tudo". Essa fricção não costuma vir com um manual. Vem, na maioria das vezes, em silêncio, dentro de uma rotina que não para pra deixar a pergunta terminar de se formar.
A leitura sistêmica entra exatamente nessa brecha. Não como fuga, não como mais uma tarefa de autodesenvolvimento para empilhar sobre as outras. Como método estruturado de escuta de si, usando histórias que já existem no mundo como espelho para história que está sendo vivida.
O protocolo ECOAR
Dentro do LeiturAção, o processo de leitura sistêmica de livros e filmes segue um protocolo de cinco etapas, o ECOAR: Espelho, Conexão, Origem, Acolhimento e Realização.
Espelho. A primeira etapa pede que a leitora identifique, dentro da obra, o personagem, a cena ou o conflito que mais provoca reação nela. Não o que ela acha mais bonito ou mais bem escrito. O que incomoda, o que emociona sem explicação clara, o que ela releu duas vezes sem saber por quê. Esse ponto de reação é o espelho.
Conexão. Depois de identificado o espelho, a etapa seguinte é nomear a conexão entre esse elemento da narrativa e um episódio real da própria vida. Toda reação forte a uma obra carrega um encontro escondido com uma experiência pessoal, muitas vezes uma que a pessoa nunca tinha associado àquele livro ou filme antes.
Origem. Aqui a leitora nomeia, com clareza, a raiz do padrão que essa conexão revela. Um medo recorrente, uma forma de se relacionar, uma crença sobre o próprio valor. É o momento em que a leitura para de ser sobre o livro e passa a ser sobre quem está lendo.
Acolhimento. Nomeada a origem, essa etapa propõe uma conversa entre a leitora de hoje e a versão dela que viveu aquele episódio pela primeira vez. Muitas vezes é literal, por escrito, como uma carta. É a etapa que costuma gerar mais emoção dentro do processo, porque coloca lado a lado quem a pessoa era e quem ela é agora, sem julgamento, só acolhimento. O acolhimento também acontece de forma coletiva, nos encontros em que as participantes da mentoria compartilham entre si as leituras realizadas, e a escuta de uma história alheia devolve, muitas vezes, um pedaço da própria.
Realização. O protocolo se encerra com uma decisão prática, pequena e concreta, que nasce direto da clareza gerada nas etapas anteriores. Não é uma meta genérica de "mudar de vida". É um gesto específico, do tamanho da vida real de quem está fazendo o processo.
O que muda, na prática
Mulheres que passam pelo ECOAR de forma consistente relatam uma mudança que não é sobre ler mais livros. É sobre lembrar como ouvir a própria voz por trás do barulho de décadas cuidando de tudo e de todos. Uma cena de filme vira ponto de partida pra uma conversa que estava engasgada há anos. Um personagem secundário de um romance revela um padrão de relação que se repete desde a adolescência. A leitura deixa de ser só hábito cultural e passa a ser ferramenta de trabalho interno, com estrutura e método, não só intenção.
Não é sobre encontrar respostas prontas dentro dos livros. É sobre desenvolver a capacidade de fazer as perguntas certas usando a literatura e o cinema como espelho, num momento da vida em que essas perguntas já não podem mais esperar.
Professora Ynah é licenciada em Letras pela UFRJ, professora da UFPE e doutora em Educação. É idealizadora da metodologia LeiturAção e do protocolo ECOAR de leitura sistêmica de livros e filmes. Autora do livro “LeiturAção: crenças limitantes superadas, vidas transformadas (https://link.amazon/B05uVEtKr). Criadora do evento presencial chamado Café Letrado, que aplica o protocolo ECOAR em filmes. Acompanhe o trabalho no Instagram @professoraynah. Mais detalhes em www.leituracao.com.br e no canal do YouTube @professoraynah.
🟣 Ovacionada em SP, Priscila Senna transforma participação surpresa em noite histórica
#SendoProsperidade com Mariângela Borba
O passado não entra em campo
Por Mariângela Borba
Quando terminou a partida entre Brasil e Noruega, era
natural que as conversas se concentrassem no placar.
Uns procuraram culpados.
Outros apontaram erros individuais.
Houve quem responsabilizasse o treinador.
Houve quem elegesse um jogador como símbolo da derrota.
É uma reação humana.
Quando algo nos frustra, nosso cérebro tenta encontrar uma
explicação simples para acontecimentos que, quase sempre, são muito mais
complexos.
Mas talvez a pergunta mais importante fosse outra:
O que uma derrota como essa revela sobre nós?
Durante semanas alimentamos o sonho do hexa.
No entanto, a eliminação trouxe uma lição que vai muito além
do futebol.
Nenhuma conquista passada garante o resultado de amanhã.
O Brasil construiu uma das histórias mais vitoriosas do
futebol mundial.
Mas história, por si só, não entra em campo.
Prestígio não marca gols.
Camisa pesa.
Mas não decide partidas.
Talvez seja exatamente aí que more uma das maiores
armadilhas da vida.
Quantas vezes continuamos acreditando que aquilo que
conquistamos ontem será suficiente para sustentar o amanhã?
Carreira não se faz em um único grande momento.
Constrói-se todos os dias.
Relacionamentos também.
Credibilidade também.
Excelência também.
Aristóteles já dizia:
"Somos aquilo que repetidamente fazemos. A
excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito."
Os resultados que aparecem hoje são consequência dos hábitos
que repetimos quando ninguém está olhando.
Excelência não nasce do improviso.
Nasce da repetição.
Do treino.
Da constância.
Da disciplina silenciosa.
Há quem diga que grandes resultados exigem grandes
renúncias.
Independentemente de concordarmos integralmente com essa
ideia, a provocação permanece.
Estamos vivendo a disciplina que cobramos dos outros?
Enquanto criticamos a falta de preparo alheia...
Como está o nosso preparo?
Enquanto cobramos comprometimento...
Estamos honrando a palavra que damos?
Enquanto apontamos a falta de foco...
Quanto tempo desperdiçamos diariamente em distrações que
pouco acrescentam à nossa vida — como permanecer rolando infinitamente as redes
sociais ("scrollando"), na expectativa de que o próximo conteúdo
finalmente traga aquilo que estamos procurando?
Freud talvez dissesse que nem sempre percebemos como
racionalizamos nossos fracassos.
É mais confortável localizar a culpa fora de nós do que
reconhecer aquilo que precisa ser transformado em nosso próprio modo de viver.
Jung lembraria que a sombra nunca habita apenas o outro.
Ela também aparece quando projetamos, sobre alguém, aquilo
que ainda resistimos em reconhecer em nós mesmos.
Talvez por isso derrotas despertem julgamentos tão rápidos.
Quando o Brasil perdeu, muitos buscaram imediatamente um
culpado.
Mas vitórias e fracassos raramente pertencem a apenas uma
pessoa.
São consequência de processos.
Processos de formação.
Processos de liderança.
Processos de cultura.
Processos de escolhas.
Talvez o problema também não esteja apenas dentro das quatro
linhas.
Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, descreveu o estamento
burocrático como uma elite dirigente que se perpetua no comando, frequentemente
mais preocupada em conservar o próprio poder do que em promover renovação.
Guardadas as devidas proporções, essa reflexão nos convida a
olhar para além do futebol.
Quantas instituições permanecem prisioneiras das próprias
estruturas, confundindo permanência com competência?
Hannah Arendt lembrava que cada geração recebe um mundo
antigo, mas é responsável por renová-lo.
Conservar não significa repetir.
Significa manter vivo aquilo que continua fazendo sentido.
Nenhuma instituição permanece viva apenas por aquilo que
realizou no passado.
O mesmo vale para pessoas.
O mesmo vale para nós.
Nietzsche dizia que tornar-se quem se é exige uma permanente
disposição para a superação.
Talvez seja justamente isso que a derrota oferece.
Ela interrompe a ilusão.
Rompe a acomodação.
Obriga-nos a abandonar a nostalgia.
E devolve a pergunta que realmente importa:
O que faremos daqui para frente?
Minha avó, ufanista como poucas, costumava torcer contra a
Seleção.
Foi com ela que aprendi, além do patriotismo, o Hino
Nacional, o Hino à Bandeira, o Hino da Independência, o Cisne Branco...
Quando eu perguntava por quê, respondia com uma serenidade
desconcertante:
"Ganhando ou perdendo, o Brasil continua sendo
Brasil."
Na infância, eu entendia a frase.
Hoje compreendo a profundidade dela.
Psicóloga e educadora extraordinária, ela não falava apenas
de futebol.
Falava da vida.
Nenhuma vitória resolve todos os nossos problemas.
Nenhuma derrota explica quem somos.
Talvez a maior derrota não seja perder uma Copa do Mundo.
Talvez seja acreditar que conquistas antigas bastam para
sustentar o futuro.
Porque legado não vive de lembranças.
Ele precisa ser renovado.
Todos os dias.
A vida não pergunta quantas estrelas já carregamos no peito.
Ela pergunta, silenciosamente,
o que estamos construindo hoje para que o amanhã tenha, de
fato, algo a celebrar.
Jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura
Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como território de
poder e autora da coluna #SendoProsperidade🌻