A centelha que o algoritmo não alcança
Por Mariângela Borba
Nunca produzimos tantas imagens, textos, músicas e ideias, nem fomos alimentados por tantas fontes em tão pouco tempo, quase simultaneamente. Talvez por isso nunca tenha sido tão necessário perguntar o que torna uma criação verdadeiramente humana.
Nesta semana, o papa Leão XIV chamou atenção para algo que vai muito além de saber se uma imagem produzida por inteligência artificial é bonita, original ou tecnicamente perfeita. A diferença, como observou, é anterior à estética. É ontológica. Aos algoritmos, disse o Papa, falta a centelha do humano.
Uma máquina reconhece padrões, cruza referências e produz resultados impressionantes. Mas não teve infância, não sentiu saudade, não perdeu alguém, não experimentou a fé, o medo, o afeto ou a contradição de existir.
Como dizia Vinicius de Moraes, a vida só se dá a quem se deu, a quem amou, chorou e sofreu.
Uma criação humana carrega intenção, memória, experiência e um olhar construído ao longo de uma vida. A tecnologia pode ampliar esse processo, mas não substitui quem cria.
Byung-Chul Han há tempos nos alerta para uma época marcada pela aceleração e pelo excesso de informação. Produzimos, consumimos e respondemos cada vez mais depressa. Mas onde fica o tempo necessário para contemplar, elaborar e pensar?
Talvez essa seja também uma das perguntas deste domingo de eleições.
Algoritmos já participam de muitas das nossas escolhas. Selecionam o que vemos, ouvimos, lemos e compartilhamos. Reconhecem padrões e antecipam preferências.
Mas conhecer nossas preferências não é compreender nossas razões.
Democracia não é apenas escolher. É discernir, confrontar informações, conviver com diferenças e assumir responsabilidade pelas escolhas que fazemos. É sermos, de fato, humanos — homens e mulheres capazes de escolher, responder e conviver.
Num tempo em que sistemas podem nos dizer o que provavelmente queremos, talvez seja ainda mais importante perguntar o que, de fato, queremos.
Hoje, dia de São Francisco de Assis, a oração também parece ganhar outra dimensão: onde houver ódio, que eu leve o amor.
Nenhuma tecnologia deveria nos poupar desse trabalho.
Ao contrário. Quanto mais sofisticadas ficam as ferramentas, mais necessário se torna compreender o lugar de cada uma delas.
Uma máquina pode produzir palavras sobre amor, saudade ou liberdade. Mas pode compreender o peso de uma escolha? Pode responder por ela? Pode amar?
Talvez democracia e inteligência artificial nos coloquem, cada uma a seu modo, diante da mesma questão:
o que faremos para que, em meio a tantos algoritmos, ainda reconheçamos a nossa própria voz?
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade 🌻