O silêncio que nos
empobrece
Por Mariângela Borba
Comecei a semana pensando em escrever sobre inteligência artificial. Mas a
vida, às vezes, impõe temas que nenhum algoritmo seria capaz de produzir.
Uma colega, também comunicóloga e psicanalista em formação, me enviou o trecho de uma fala em que um
influenciador brasileiro, hoje vivendo nos Estados Unidos, chamou jornalistas
de “putas”. Não era uma crítica à imprensa, nem um debate sobre apuração, ética
ou divergência editorial. Era algo mais antigo e mais revelador: a tentativa de
reduzir mulheres que ocupam espaços de fala à humilhação sexual. Talvez o mais
perturbador dessa história não seja apenas a ofensa dirigida às jornalistas,
mas a naturalidade com que ainda se usa a palavra ‘puta’ como instrumento de
desqualificação de mulheres.
E foi impossível não me perguntar: quando foi que confundimos
liberdade de expressão com licença para degradar pessoas?
Freud ajudou a compreender esse fenômeno. Em Psicopatologia da Vida
Cotidiana, ele demonstra que palavras aparentemente banais, lapsos e
escolhas linguísticas frequentemente revelam conteúdos inconscientes que
tentamos disfarçar. Certos insultos, mesmo quando apresentados como brincadeira
ou opinião, não surgem do nada; expõem estruturas de pensamento sedimentadas
culturalmente.
E coincidentemente nesta construção, nesta se mana recebi um convite para
assistir a um espetáculo chamado Meretrizes, do Coletivo Gompa, do Rio Grande
do Sul, em cartaz na Caixa Cultural Recife até 7 de agosto. Em cena, a atriz
Liane Venturella divide o palco com mulheres reais que habitam o contexto
urbano, construindo um espaço de denúncia contra diferentes formas de opressão
cotidiana. A montagem, dirigida por Camila Bauer — vencedora do troféu de
Melhor Direção na 36ª edição da premiação, em março de 2026 — une teatro, piano
executado ao vivo e relatos de profissionais do sexo em uma experiência
artística de rara delicadeza.
Saí dali lembrando de uma frase que construí mentalmente, durante o
espetáculo, quase como um sussurro interior: a arte, às vezes, não serve para
confrontar; serve para ampliar o olhar.
Uma das mulheres que participou do debate era uma mulher com trajetória de
liderança, pensamento e história, sem qualquer “letreiro na testa” que a
identificasse antes de falar, está há 45 anos na prostituição preside uma
associação em Belo Horizonte e falou com uma lucidez que desmonta muitos
preconceitos confortavelmente cultivados à distância. Outra, mais jovem,
revelou a mesma elegância e a mesma propriedade ao narrar sua experiência.
Foi impossível não perceber que o problema não é a existência das
prostitutas, mas a facilidade com que a palavra “puta” continua sendo usada
como arma para desqualificar mulheres que ousam ocupar espaços públicos de fala,
quando nenhuma profissão deveria servir como instrumento de humilhação.
Vivemos um tempo em que a palavra liberdade é repetida com fervor, mas nem
sempre acompanhada da responsabilidade ética que lhe dá sentido.
O Papa recordou recentemente que ama os Estados Unidos pelo sentido de
liberdade, pelas oportunidades e pela capacidade de acolher pessoas de
diferentes origens em uma mesma nação. Essa visão está muito mais próxima da
Doutrina Social da Igreja — universal e profundamente humana — do que qualquer
discurso que use a fé como identidade de grupo enquanto despreza pessoas
concretas.
Ora, mas talvez o problema não seja apenas político, mas moral.
Há quem possua visibilidade, seguidores, influência e dinheiro, mas
permaneça incapaz de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente. Como diz
o velho ditado: tem gente que é tão pobre que só tem dinheiro.
Foi então que me lembrei de Carl Gustav Jung. Para ele, o silêncio podia ser
um espaço fértil de encontro com a alma. Mas existia também um silêncio
perigoso: aquele que nasce do entorpecimento.
Quando nos acostumamos à misoginia tratada como piada, à violência verbal
transformada em entretenimento e à humilhação convertida em espetáculo
político, corremos o risco de chamar anestesia de equilíbrio.
Esse silêncio não é paz. É desconexão.
Ele começa de forma quase imperceptível: deixamos passar uma agressão porque
“não vale a pena discutir”; toleramos abusos para evitar conflitos; seguimos
funcionando mecanicamente enquanto algo essencial dentro de nós vai se
apagando. Jung advertia que aquilo que negamos não desaparece — apenas desce
para a sombra, de onde continua influenciando escolhas, relações e destinos
coletivos.
Por isso, resiliência não pode ser confundida com submissão.
Existe uma sabedoria oriental que fala sobre transformar adversidade em
crescimento. Mas transformar dor em aprendizado é muito diferente de romantizar
o sofrimento. Maturidade não é suportar tudo calada.
A arte de sobreviver às feridas não está em glorificá-las, mas em impedir
que elas nos transformem naquilo que nos feriu.
Como nos lembra Lacan, quase como um sussurro incômodo: “amar é dar o que
não se tem a alguém que não o quer”. Talvez a maturidade consista justamente em
reconhecer que há lealdades que não podem exigir o sacrifício da própria
consciência.
No fim, percebo que comecei a semana pensando em inteligência artificial e terminei
refletindo sobre algo muito mais decisivo: a inteligência moral.
Tecnologias sofisticadas continuarão surgindo. O verdadeiro desafio será
preservar a dignidade humana em meio ao ruído, à conveniência e à tentação
permanente de transformar pessoas em alvos.
Talvez “Bicho de 7 Cabeças”, de Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Renato Rocha,
faça tanto sentido porque fala daquilo que tentam nos convencer a suportar em
silêncio. Há dias em que o debate público parece exatamente isso: muitas vozes,
muitas certezas e pouquíssima humanidade.
E Meretrizes trouxe melhor essa inquietação. A presença, o corpo, a escuta e
o piano pulsando ao vivo criavam um contraste doloroso com a brutalidade
abstrata das redes sociais, onde palavras são lançadas como projéteis sem que
se veja o rosto, a história ou a humanidade de quem é atingido.
O silêncio que protege a alma é muito diferente do silêncio que a aprisiona.
Prosperidade não é vencer guerras de narrativas. Prosperidade é permanecer
humana quando o mundo parece premiar exatamente o contrário.
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura
Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como território de
poder e autora da coluna #SendoProsperidade 🌻
