domingo, 26 de abril de 2026
📣 Virada de Alma Alviazul: Decisão derruba o Retrô em tarde épica em Goiana
#SendoProsperidade com Mariângela Borba
#SendoProsperidade
| Quando a mentira viraliza e a verdade vira risco
*Por Mariângela Borba
Esse texto nasceu de uma provocação — dessas de mesa de bar 😜
— e virou uma pergunta que insiste:
A quem pertence a sua opinião?
Hoje, muita gente fala em “algoritmo” como se fosse algo
distante. Não é.
Em termos simples: é um sistema que observa o que você faz —
o que você curte, comenta, compartilha… e, principalmente, quanto tempo você
permanece em algo. A partir disso, passa a te mostrar mais daquilo.
Não é neutro.
É seleção.
E aqui está o ponto:
Esse sistema não premia quem pensa melhor.
Premia quem segura atenção.
O que viraliza não é o mais verdadeiro.
É o mais impactante.
Mais direto.
Mais emocional.
Mais extremo.
A nuance não viraliza.
A dúvida não viraliza.
A complexidade não viraliza.
Mas a certeza — essa se espalha.
Na psicologia, isso já foi demonstrado: o efeito de verdade
ilusória, descrito por Lynn Hasher e Thomas Toppino, mostra que a repetição
aumenta a percepção de verdade — mesmo quando a informação é falsa.
A famosa frase atribuída a Joseph Goebbels pode até não ser
literal.
Mas o mecanismo… esse é real.
E foi amplificado.
Pesquisas do Massachusetts Institute of Technology indicam
que conteúdos falsos se espalham mais rápido que os verdadeiros — não por serem
melhores, mas por serem mais surpreendentes.
Agora, adiciona um novo elemento ao cenário:
- a inteligência artificial.
Ferramentas de IA conseguem hoje produzir textos, imagens e
vídeos altamente convincentes — muitas vezes indistinguíveis do real. O
problema não é a tecnologia em si.
É o uso.
Em contextos sensíveis — como eleições — isso ganha outra
dimensão.
Deepfakes, conteúdos manipulados, narrativas fabricadas…
tudo isso acelera a circulação de versões da realidade que parecem verdadeiras.
E aqui não estamos falando de hipótese.
Estamos falando de risco concreto à integridade da
informação pública.
Agora, desloca isso para outro campo:
o mundo do trabalho.
A Norma Regulamentadora nº 1 estabelece que a comunicação de
riscos deve ser clara, compreensível e eficaz.
Não basta informar.
É preciso garantir que o trabalhador entenda.
Isso não é detalhe técnico.
É responsabilidade jurídica.
Se a comunicação falha, o risco aumenta.
Se o trabalhador não compreende, o acidente acontece.
E quando acontece, não é só um problema operacional.
Pode ser responsabilização legal.
Agora observa o paralelo:
👉 no ambiente digital,
repetição sem crítica gera “verdade”
👉 no ambiente de
trabalho, repetição sem compreensão gera “falsa segurança”
Em ambos os casos, há uma falha central:
a comunicação não cumpre seu papel de produzir consciência —
apenas circulação.
E aqui entra um ponto mais profundo, quase psicanalítico:
O sujeito não busca apenas informação.
Busca reconhecimento.
E o algoritmo sabe disso.
Ele não entrega o que é mais verdadeiro.
Entrega o que confirma, provoca ou prende.
E, com o tempo, algo silencioso acontece:
Você não apenas consome ideias.
Você começa a se identificar com elas.
Não porque escolheu profundamente.
Mas porque foram as que mais apareceram.
Agora volta à pergunta inicial:
👉 a quem pertence a sua
opinião?
Porque, no fim, o algoritmo não impõe.
Ele só insiste.
E o que insiste, aparece.
O que aparece, familiariza.
E o que se torna familiar… raramente é questionado.
Num cenário eleitoral, isso deixa de ser só comportamento
individual.
Passa a ser estrutura de influência coletiva.
Opiniões são moldadas.
Percepções são direcionadas.
E decisões — que deveriam ser conscientes — podem nascer de
ambientes saturados por versões repetidas.
Prosperidade, hoje, talvez seja isso:
não confundir alcance com verdade,
não terceirizar a própria percepção,
e sustentar o desconforto de pensar — mesmo quando isso não
viraliza.
Porque, no fundo, a questão já não é mais “isso é verdade?”
É:
quantas vezes você precisou ouvir isso até parar de duvidar?
*Mariângela Borba é jornalista,
produtora cultural e estrategista digital. Especialista em Cultura
Pernambucana, atua na interseção entre comunicação, cultura e política. Com
passagem pelo Ministério da Cultura e gestões públicas, integra a AIP e a UBE.
Pesquisa a palavra como território de poder e estuda Psicanálise.